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Zanadu!

Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

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Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

Acerca das viagens de Twain: Mitos caídos IV (Os banhos turcos de Constantinopla)

por Tiago, em 27.01.15

Tal como frequentar uma barbearia de Paris, Mark Twain tinha o sonho de poder usufruir de um banho turco em Constantinopla; tal como em Paris, as expectativas de Twain sairiam defraudadas em toda a linha. De uma experiência cuja descrição preenche páginas em "A Viagem dos Inocentes", ficam as impressões finais do autor.

É uma odiosa aldrabice. Quem quer que goste de tal coisa deve gostar das coisas mais repugnantes à vista e aos sentidos, e quem quer que lhe descubra um encanto poético, com certeza se deleitará com todas as coisas aborrecidas, tristes, desgraçadas e nojentas deste mundo.

Acerca das viagens de Twain: Mitos caídos III (As gôndolas de Veneza)

por Tiago, em 21.01.15

Em mais um capítulo da série que pode ser definida como "Coisas que fizeram Mark Twain ficar sobejamente desiludido com o Velho Mundo", é impossível deixar de mencionar Veneza. Além de notar que perdera a glória de outrora, sendo agora uma cidade miserável e abandonada, esquecida do mundo, o maior balde de água fria foram mesmo a famosas gôndolas.

Esta era a famosa gôndola e este o deslumbrante gondoleiro: a primeira, uma velha canoa mal pintada, ferrugenta, com um forro de esquife amarrado a meia-nau, e o segundo um vagabundo andrajoso e descalço a mostrar uma parte da roupa interior que se deveria defender do escrutínio público a qualquer custo.

No entanto e como escritor de grande sensibilidade e benevolência, Mark Twain não deixa de ver as coisas por um prisma mais optimista e positivo.

Não se vê terra seca em lado nenhum, nem passeios dignos de menção; se quisermos ir à igreja, ao teatro, ou a um restaurante, temos de chamar uma gôndola. Deve ser o paraíso dos inválidos, já que realmente as pernas não nos servem de nada aqui.

Acerca das viagens de Twain: Mitos caídos - parte II (Os guias)

por Tiago, em 08.01.15

Chegados a Paris, os Peregrinos viram-se na necessidade de contratar um guia. Um processo de selecção complicado, desgastante e baseado em critérios dúbios.

Um deles era tão parecido com um pirata que o deixámos partir imediatamente.O segundo falava com uma pronúncia tão afectada que chegava a ser irritante (...) O terceiro conquistou-nos. (...) Este homem - que era afinal o nosso lacaio e servo - não deixava de ser um um cavalheiro.

Tudo parecia bem encaminhado até ao momento em que perguntam ao homem o seu nome.

Billfinger! Oh deixem-me morrer na minha pátria! (...) o nome atroz também me arranhou os ouvidos. (...) Quase que lamentei termo-lo contratado, com um nome tão insuportável.

Chamemos-lhe Ferguson - disse Dan. (...) Sem mais discussão, livrámo-nos do Billfinger, enquanto tal, e passámos a chamar-lhe Ferguson.

Ultrapassada a questão central da nomenclatura, rapidamente as coisas começaram a dar para o torto e os viajantes perceberam que tinham ali um farsante de primeira ordem que os tinha enganado com um "discurso de abertura (...) perfeito".

(...) estava sempre com fome, sempre com sede (...) Estava sempre a querer que comprássemos coisas (...) O biltre traiçoeiro! (...) patife consumado.

E foi assim a experiência de Mark Twain com os guias turísticos de Paris. Uma experiência enriquecedora e que o motivou a prometer desde logo um regresso.

Hei-de visitar Paris outra vez, e então os guias que se cuidem! Irei com as minhas pinturas de guerra... levo o meu machado à mão.

Também em Milão e Génova o guia foi uma peça essencial na visita dos Peregrinos. As suas qualidades de poliglota estiveram sempre presentes, permitindo uma experiência cultural profunda aos viajantes americanos.

Foi o guia que nos contou, e não me parece que ele se aventurasse à tarefa arriscada de contar uma mentira, quando nem sequer consegue dizer uma verdade em inglês sem deslocar o maxilar.

Os guias sabem o suficiente da língua estrangeira para misturarem tudo de modo a que a gente não perceba patavina de nada.

Mas como em todas as boas histórias, o nosso herói teria um momento de redenção em que todas as agruras e mágoas da viagem seriam recompensadas com o avistamento de algo sublime, belo e de molde a aquecer qualquer coração empedernido. Tudo se passou na subida ao Vesúvio, vulcão sobranceiro à cidade de Nápoles, permitindo a contemplação de um "belo panorama de um ponto alto da montanha".

Foi então que o tipo que ia agarrado à cauda do cavalo à minha frente, infligindo ao animal toda uma panóplia de crueldades, levou um coice que o atirou a várias jardas dali, sendo que este acidente (...) me dispôs muito serena e alegremente, e senti-me muito satisfeito por fazer a caminhada do Vesúvio.

p313

Acerca das viagens de Twain: Mitos caídos - parte I (As barbearias de Paris)

por Tiago, em 06.01.15

Principia aqui uma nova sub-rubrica com a qual todos os viajantes se poderão identificar: chegar a um sítio com altas expectativas e nada corresponder à ideia que tínhamos projectado com base em pesquisas prévias. O mesmo aconteceu com Mark Twain durante a sua Cruzada até à Terra Santa.

Entre as peripécias com o guia turístico, que acabaram por marcar a estadia em Paris, Mark Twain pôde enfim concretizar um sonho de criança.

Desde pequenino que eu tinha a magnífica fantasia de um dia me fazerem a barba numa barbearia palaciana de Paris. Queria poder estender-me ao comprido numa poltrona para inválidos com quadros e mobiliário sumptuoso à volta; com frescos nas paredes (...) com perfumes da Arábia a inebriarem-me os sentidos (...) Ao fim de uma hora despertaria a contragosto e contemplaria a minha carinha suave e macia como a de um bebé. Quando me fosse embora, imporia as mãos sobre a cabeça do barbeiro, dizendo: «Deus te abençoe, meu filho!»

Apesar de desconhecer os usos e costumes do século XIX no que ao corte de pilosidades diz respeito, diria que se calhar eram expectativas um tudo-nada elevadas. O mundo de Mark Twain começa a desmoronar assim que entra na "barbearia palaciana".

Levaram-nos então para uma salinha das traseiras, exígua e pardacenta; arranjaram duas cadeiras de escritório e sentaram-nos nelas com os casacos vestidos.

Estava então o circo montado e tudo pronto para que "um dos vilões das perucas" (a.k.a. barbeiro) iniciasse a nobre cerimónia do fazer da barba de um distinto cavalheiro americano.

...ensaboou-me a cara (...) e, como toque final, emplastrou-me uma massa de espuma dentro da boca. Cuspi aquela coisa nojenta com um grande palavrão em inglês. (...) Depois o criminoso amolou a faca na bota (...) O primeiro golpe da lâmina descascou-me a pele da cara e fez-me levantar da cadeira. (...) Diga-se apenas que me sujeitei ao cruel sacrifício de deixar um barbeiro francês fazer-me a barba, com lágrimas de tremenda agonia a correrem-me pelas faces (...) E então o aprendiz de assassino levou uma bacia de água abaixo do meu queixo e salpicou o que estava lá dentro pela minha cara (...) sob o falso pretexto de lavar o sabão e o sangue. (...) preparava-se para me pentear quando pedi para sair. Disse-lhe, com assaz ironia, que já me bastava ter sido esfolado e não deixava que me tirassem o escalpe.

Apesar de desgostado com a decoração da barbearia palaciana, Mark Twain terá ficado sensibilizado com o apurado trabalho do barbeiro, planeando já umas visitas ao domicílio para que pudesse ter a barba feita na sua própria casa.

Um dia um barbeiro parisiense virá esfolar-me ao quarto, e nunca mais ninguém ouvirá falar dele.

 

Acerca das viagens de Twain: Marselha

por Tiago, em 04.01.15

Ultrapassados os Açores e Gibraltar, os Peregrinos entram finalmente no Mediterrâneo e aportam em Marselha onde têm um primeiro e muito aguardado contacto com a cultura francesa. Daqui partiam de comboio para Paris onde visitariam a grande Exposição Universal de 1867, durante o reinado do imperador Napoleão III.

Esta gente de Marselha faz hinos de Marselha, e casacos de Marselha, e sabão de Marselha para o mundo inteiro; mas nunca cantam os seus hinos, nem vestem os seus casacos, nem se lavam com o mais pequeno sabonete.

http://blog.carmensteffens.com/wp-content/uploads/2013/02/vieux-port-marseille-france1-3.jpg

 

Acerca das viagens de Twain: Tânger

por Tiago, em 24.12.14

Aproveitando uma escala em Gibraltar, Mark Twain e alguns Peregrinos aproveitaram para uma breve visita à segunda cidade mais antiga do mundo, Tânger. Uma cidade onde coabitam diferentes credos e estratos sociais o que leva a uma situação curiosa, notando Twain que há três domingos por semana. O dos muçulmanos é à sexta-feira, o dos judeus ao sábado e o dos cônsules cristãos ao domingo.

Menos impressionantes são as lojas de Tânger cujas dimensões médias (...) são semelhantes ao espaço de um chuveiro numa terra civilizada. Enfim, nem tudo pode ser um pôr-do-Sol mágico nas praias paradísiacas do Mediterrâneo.

 

Acerca das viagens de Twain: Açores

por Tiago, em 17.12.14

A ilha que se avistava era a das Flores. Não parecia muito mais do que um monte de lama despontando da névoa baça do mar. (...) Tinha escarpas íngremes e abruptas (...) os cimos rochosos pareciam desenhar fortalezas e castelos.

 

Assim, guinámos em direcção à ilha mais próxima do arquipélago, o Faial (...) A cidade [da Horta] as suas casas branquinhas como neve aninham-se muito aconchegadas no meio de um mar de vegetação verde (...) cada campo e cada hectare apresenta-se recortado em pequenas quadrículas cercadas por muros de pedra.

 

Navegámos ao longo da costa da Ilha do Pico, sob uma majestosa pirâmide de verde que se erguia de um pulo escorreito desde o solo que pisámos até uma altura de 7613 pés, e cujo cume se elevava acima das nuvens brancas como uma ilha à deriva no nevoeiro.

 

Em contraste com as descrições idílicas das ilhas dos Açores, Twain não parece ter ficado especialmente encantado com os barqueiros portugueses que descreve como trigueiros, barulhentos, mentirosos nem com a população açoriana pobre, apática, modorrenta e preguiçosa. Mas para lá destes preconceitos e estereótipos, achei caricata a forma como Mark Twain intui a relação de Portugal com a Igreja: Os bons católicos dos portugueses (...) pediram a Deus que os guardasse do desejo herético de quererem saber mais do que os seus pais.

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