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Zanadu!

Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

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Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

Acerca do ano literário

por Tiago, em 27.12.14

Começou com uma reflexão sobre política internacional através de "Da China" de Henry Kissinger. Uma história das relações políticas do Império do Meio com o mundo exterior dando um ênfase óbvio às relações sino-americanas, em especial ao período em que Kissinger fez parte do executivo e conduziu as negociações para abertura da China comunista ao mundo. Um livro fascinante que me chamou a atenção para personagens históricas como Zhou Enlai, Mao ou o próprio Kissinger. Assim, "Da China" deu o mote para outras leituras deste ano que agora acaba, entre as quais destaco a biografia de Zhou Enlai, "The Last Perfect Revolutionary". Foi o livro de que mais gostei este ano pelo retrato exaustivo de um homem que apesar de aprisionado muitas vezes  nas contradições entre os seus princípios e as suas funções, lutou sempre por um caminho mais sensato e com uma visão mais abrangente e moderna do lugar da China no mundo. Um homem que viveu à sombra de Mao, assombrando o grande líder até ao fim dos seus dias.

O tema China atravessou de forma transversal todo o ano com outros livros como "As atribulações de um chinês na China" de Júlio Verne, "China as I see it" de Pearl S. Buck ou "O Mandarim" do nosso Eça de Queiroz. No conjunto, todos estes livros espicaçaram a minha curiosidade pelo Oriente e, acima de tudo, deram-me algumas pistas sobre a forma de ver a Vida na China e como isso explica tantos conflitos latentes entre Oriente e Ocidente. No entanto, nem só de China se fizeram as viagens deste ano, também fui a outros sítios: explorei a Antártida com Shackleton, visitei o Chile de Pinochet através das aventuras de Miguel Littín narradas por Gabriel Garcia Marquez, fui à Coreia do Norte contemporânea com José Luís Peixoto e fiz uma cruzada pela Europa e pela Terra Santa através das palavras ácidas e acintosas de Mark Twain.

Na categoria que eu defino como os romances mais tradicionais, e porque os clássicos são sempre actuais, aprofundei um favorito de sempre, John Steinbeck, em contos curtos como "A Pérola" ou em novelas como "O Inverno do Nosso Descontentamento"; procurei o humor corrosivo de Philip Roth e encontrei-o num belo livro sobre o matrimónio de comunistas e outros aspectos quotidianos da era McCarthy; peguei o touro pelos cornos no que a Hemingway diz respeito com "Adeus às Armas" e "Por Quem os Sinos Dobram", ficando finalmente rendido ao estilo aparentemente simples de Hemingway que tanto me tinha desapontado em "The Garden Of Eden". Falando em clássicos, é impossível deixar de mencionar que li finalmente um dos maiores, "Anna Karenina" e somei também mais algumas aventuras de Poirot.

No capítulo sempre fértil das desilusões destaco a minha primeira abordagem a Selma Lagerlöf com "A Lenda de Gösta Berling", uma história e um imaginário que não me cativaram, num livro escrito num estilo que não apreciei sobremaneira. Menção honrosa também para Faulkner: depois de ter lido "A Luz em Agosto", romance de que não gostei, tentei agora uma versão mais curta, na novela "O Homem e o Rio"; porém o estilo complexo na construção das frases tende a perder-me nos raciocínios do autor o que é pena porque os temas abordados são muito interessantes. Ainda não desisti, conto ler "O Som e a Fúria" e, com mais maturidade, talvez consiga finalmente apreciar um autor que me parece estar num elevado nível técnico e literário mas que teima em não me cativar.

E porque a forma também é importante, 2014 foi o ano em que li finalmente em formato digital. Conclusão: tá giro e é engraçado mas o papel vai continuar a dominar as minhas leituras; não fossem os constrangimentos  económicos e nem sequer os ebooks seriam uma opção. Nada consegue reproduzir a sensação de ter um objecto físico arrumado numa prateleira de uma qualquer estante. As minhas aventuras digitais foram quase exclusivamente direccionadas a Eça de Queiroz começando pelo já citado "Mandarim", os "Contos", "A Relíquia" e "A Cidade e as Serras". De "A Relíquia" guardarei para sempre uma genial primeira parte e a certeza de que nem que El Rei me convide para um chá no Paço eu vou deixar de ler Eça. Mais do que as descrições por vezes até fastidiosas, é o humor o ponto alto dos seus livros. E não é humor oco, é humor inteligente, material de reflexão: as desventuras relatadas na "Civilização", expandidas em "A Cidade e as Serras" fizeram-me pensar qual o lugar certo para um rapaz da aldeia que estudou na cidade e agora tem um mundo de escolhas pela frente. Apesar destes pensamentos mais ou menos profundos, não posso deixar de sorrir com a encantadora ironia que é ler "A Cidade e as Serras" num tablet. O que diria Eça destas modernices?

Veremos o que 2015 reserva sendo que é certo que começará com a "Diplomacia" de Kissinger e "O Valente Soldado Chveik" de Hasek. Depois, espero voltar a Pynchon antes da estreia de "Vício Inerente" (o novo filme de Paul Thomas Anderson), Pearl Buck, Steinbeck, Saramago, Garcia Marquez, Gore Vidal e Vargas Llosa. Espero ainda estrear-me na obra de Agustina Bessa-Luís, Camilo, Conrad, Cervantes e quiçá Machado de Assis de quem tenho visto algumas referências interessantes. Ao trabalho portanto!

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