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Zanadu!

Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

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Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

Acerca das linhas do K2

por Tiago, em 04.12.14

A exploração de terrenos desconhecidos já parece impossível no Mundo actual; ainda assim, é interessante verificar que ainda nos anos 50 se organizavam expedições para conquistar cumes ainda inalcançáveis dos Himalaias. Tal como me fascina a travessia antárctica de Shackleton (da qual falei aqui no blog há algum tempo) também fico maravilhado com as aventuras que constituíram as conquistas dos picos de 8000m. Um em particular chamou-me a atenção pela brutalidade dos relatos: o K2 também conhecido como Savage Mountain.

 

Situado na fronteira entre a China e o Paquistão, é a segunda montanha mais alta do Mundo com uns modestos 8611m de altitude ou, em números mais práticos, quatro serras da Estrela empilhadas com dois Empire State Buildings por cima. Apesar de ser mais baixo que o Evereste, a subida é mais difícil quer do ponto de vista técnico quer do ponto de vista das condições meteorológicas tipicamente encontradas, agravadas pelo facto de ser uma montanha bastante exposta aos elementos. É a segunda montanha mais mortífera do Mundo (atrás apenas do Annapurna); 1 em cada 4 morrem a tentar alcançar o cume. Nunca foi subida durante o Inverno ao contrário da maior parte dos grandes picos dos Himalaias.

O cume foi conquistado em 1954 por uma dupla italiana, Achille Compagnoni e Lino Lacedelli. Depois de uma breve paragem no cume, Lacedelli teve que ameaçar Compagnoni com um machado de neve para o obrigar a descer; a ideia de Compagnoni era ficar lá em cima a descansar. Esta história traduz o efeito brutal da altitude na capacidade de discernimento, mesmo nos alpinistas mais experimentados e aclimatizados: o tempo passado na Zona da Morte (acima dos 8000m), com ar extremamente rarefeito, prejudica a oxigenação do cérebro o que resulta em quebras graves nas capacidades analíticas, percepção do risco e estados de apatia que são absolutamente mortais naquelas altitudes. Antes desta expedição vitoriosa, outras existiram que abriram vias e criaram as condições para este sucesso: recomendo o documentário da BBC "The Ghosts Of K2" sobre as tentativas falhadas das expedições de Fritz Wiessner (ficou apenas a 200m do cume!) e Charles Houston.

 (Compagnoni no topo do K2, provavelmente a pensar em dormir ali uma sesta, até ser ameaçado pelo seu companheiro de escalada)

 

A rota standard e mais acessível para o cume é a chamada Abruzzi Spur (pelo sul da montanha) cujo nome homenageia o princípe italiano que a tentou usar no início do século XX; chegado a cerca de 6250m de altitude, voltou para trás declarando que o K2 nunca seria conquistado. Os principais obstáculos desta via são a House's Chimney (uma garganta constituída por uma parede vertical de rocha, exposta a ventos) e a Black Pyramid (segmento mais técnico da subida com escalada em rocha e gelo misturada com paredes quase verticais). Hoje em dia, ambas as zonas possuem cordas fixas que facilitam a ascensão e o rappel na descida.

 (House Chimney um dos troços mais críticos do K2)

 

Como nestas coisas há sempre um gajo ainda mais maluco e que acha que ainda é possível ir mais longe, foram feitas subidas por algumas outras vias ou variantes. Uma destas vias mais extremas é a chamada Polish Line, subida uma única vez por uma dupla de alpinistas polacos. Apenas um deles chegou vivo ao campo base sendo que o outro morreu na descida. Ninguém voltou a tentar repetir esta via. Reinhold Messner, a quem muitos atribuem o título de melhor alpinista de sempre, chamou a esta rota "suicida" pelo facto de ser muito propícia a avalanches e por ser extremamente exposta e perigosa.

 (Ascenção da Black Pyramid nos tempos modernos)

 

Chegado lá acima, aposto que se saboreia o momento. Deve ser um sabor agridoce quando pensam no que há para descer.

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