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Zanadu!

Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

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Crónicas de Timbuktu, Trevim e Lisboa (nos melhores dias)

Acerca da Europa

por Tiago, em 26.09.16

Tem sido um período rico de leituras ou pelo menos com leituras bastante compensadoras. Um destaque claro para "A Servidão Humana" de Somerset Maugham, tanto pela escrita, como pela história e pelas memórias que me traz dos sítios onde o li. Mas enfim, antes de escrever sobre isso ainda preciso de perceber o que raio me prendeu naquele livro tendo em conta que a história está longe de me ser familiar e a empatia pelos personagens principais é cerca de zero.

Um dos temas que estava mais afastado nos últimos tempos era a política; deixei "Rough Riders" do Teddy Roosevelt a meio porque sinceramente não me estava a interessar nada apesar de ter imensa curiosidade pela personagem do Roosevelt desde que li "Império" do Gore Vidal. Penso que para a próxima vou tentar uma biografia em vez de livros escritos pelo próprio.

Assim, comprei o meu primeiro livro na Amazon: se nunca experimentaram não o façam, abre-se uma caixa de Pandora para tudo aquilo que sempre quisémos ler mas nunca encontrámos numa livraria! Deixa-me cá ver do "Arquipélago Gulag"... Comprei "The Revenge Of Geography" de Robert Kaplan, um jornalista americano que escreve este livro sobre a forma como a geografia e o desenho das fronteiras acabam por ter um papel determinante (se bem que não determinista) nos conflitos armados que sucederam no passado e que podem vir a suceder no futuro. Um livro de geopolítica sempre do ponto de vista americano mas muito interessante.

Ainda estou no início da leitura mas achei interessante uma citação que define a Europa da forma como a tenho visto e sentido nas viagens que pude fazer até hoje pelo coração do continente.

Central Europe, Mitteleuropa, was more of an idea than a fact of geography. It constituted a declaration of memory: that of an intense, deliciously cluttered, and romantic European civilization, suggestive of cobblestone streets and gabled roofs, of rich wine, Viennese cafés, and classical music, of a gentle, humanist tradition infused with edgy and disturbing modernist art and thought.

Acerca da delicadeza da voz gutural

por Tiago, em 08.08.16

Pessoa pacata que sou, tendo a desconfiar de estilos agressivos como death metalblack metal e outras coisas que tais. Parece-me muito barulho, saltos e gritos para nada. Tudo isto me passou quando travei conhecimento com o suave colectivo norueguês que dá pelo nome de Opeth. Comecei com alguma batota, pelos temas mais suaves e instrumentais como "Harvest" ou "Hope Leaves". 

O ponto que me espanta sempre mais é a calma, fleuma e veia humorística do vocalista Mikael Åkerfeldt. O tipo passa as músicas a berrar de forma espectacular e depois pelo meio fica extremamente calmo a contar anedotas. Essa tranquilidade passa muito para o público que está por ali e, no máximo, abana a cabeça sem se mexer muito mais. É impressionante mas fui ver Opeth sem ser pisado, empurrado ou alguém se ter metido à minha frente. Nunca me aconteceu no Rock In Rio ou no Alive por exemplo. Bom, termina-se isto com "Bleak" a minha música preferida, do meu álbum preferido "Blackwater Park".

Acerca do Funeral e Ressurreição de Ricardo Reis

por Tiago, em 17.07.16

Como muitos dos jovenzinhos a quem foi imposto o "Memorial do Convento" no secundário, também eu fiquei horrorizado com o estilo (aparentemente) pesado e denso de José Saramago. Na realidade até achei a história uma das melhores coisas que já li, não só pelo enredo mas essencialmente pela profundidade e caracterização das personagens. Ainda assim, e pessoa inteligente que sou, tenho mantido nos últimos anos uma saudável distância de segurança entre mim e a obra do único Nobel da Literatura português.

Recentemente achei que estava a ser um bocado totó e decidi dar uma segunda oportunidade a Saramago. Era uma ideia que já me andava a corroer as entranhas e que ficou solidificada quando uma querida amiga me apelidou carinhosamente de besta inculta por dizer que não tinha gostado muito do estilo no "Memorial do Convento". Assim e também por pressão de um colega de casa, acabei por adquirir, nesse grandioso evento que é a Feira do Livro, o "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "O Ano da Morte de Ricardo Reis".

Comecei por este último e bastaram 50 páginas para perceber que afinal eu era apenas um jovenzinho imaturo que nunca deveria ter lido o "Memorial do Convento" naquela altura do secundário; simplesmente não tinha capacidade para perceber e compreender a magia de um estilo de escrita tão próximo da oralidade mas com uma carga tão grande de referências políticas, sociais e literárias. Os devaneios do protagonista por zonas onde me desloco diariamente como o Cais do Sodré, Santa Catarina ou os Prazeres também contribuíram para ter gostado tanto do livro, mais até do que os diálogos com o fantasma do Pessoa ou a caracterização social do Portugal de Salazar.

Numa altura em que tanta gente faz actos de contrição quanto à selecção e ao seu estólido capitão, eu por mim mantenho todas as críticas e desdém quanto aqueles ursos; no entanto, quanto a Saramago devo confessar que não se tornou o meu escritor preferido mas vou ler mais livros de certeza porque há ali qualquer coisa de especial.

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Acerca do entrelaçamento quântico segundo os Pink Floyd

por Tiago, em 09.07.16

Há muitos anos lia um artigo na super interessante revista "Super Interessante" em que falavam para lá de teletransporte e de como o entrelaçamento quântico entre partículas era um passo nesse sentido. Anos corridos e ainda tenho de ir a correr para o metro senão não há produção que leve este país para a frente. Enfim já sabemos que isto da Ciência é só bugiganguice para enganar o incauto do proletário na sua busca incessante de optimizar o seu processo produtivo.

Serve esta introdução, como me parece evidente, para chegarmos aos fabulosos Pink Floyd. A propósito do regresso do David Gilmour a Pompeia, lembrei-me de como o filme Live at Pompeii (1973) capta os Pink Floyd num ponto de rebuçado que geralmente é ofuscado pelas alturas insanas de Dark Side of The Moon (1973) ou The Wall (1979). Na verdade o concerto de Pompeia é um conjunto tremendamente sólido de músicas da fase mais psicadélica e experimental da banda antes de chegaram a terrenos mais progressivos e conceptuais. Quanto ao entrelaçamento, esse está lá e tem o expoente máximo em Careful With That Axe Eugene, uma música absolutamente hipnótica, num crescendo imparável até à erupção e acalmia, traçando um paralelo assombroso com a história de Pompeia. Um momento absolutamente mediterrânico (é impossível não imaginar a Acrópole e a Esfinge) dos moços londrinos. É essa ligação trascendental entre a música, a história, o local e a estranheza de tocar para um anfiteatro vazio que faz a magia deste concerto.

 

Down, down. Down, down. The star is screaming.
Beneath the lies. Lie, lie. Tschay, tschay, tschay.
Careful, careful, careful with that axe, Eugene.
The stars are screaming loud.

Acerca da Boa América

por Tiago, em 18.06.16

Numa altura de pré-campanha eleitoral nos Estados Unidos é algo preocupante perceber como a democracia não encerra em si própria uma garantia de liberdades individuais de pensamento, culto ou circulação. Não é um garante sequer de um sistema político representativo e forte na defesa dos valores essenciais. É aquilo que os eleitores querem que seja e é assim que deve ser.

No entanto, embora seja tão divertido insistir na dualidade entre a lunaticidade de Trump e nas ligações sombrias de Clinton, eu prefiro continuar a olhar para a melhor América e acreditar na sua tradição de terra da liberdade, sonhos e oportunidades. Nesse sentido, não será surpreendente que seja um admirador de Springsteen e das suas músicas que narram as histórias quotidianas das dores de crescimento na América dos anos 60 com um enlevo poético sem se tornar intelectual; optimista sem ser pateta alegre; crítico sem ter palas revolucionárias

A luta da classe operária (não, isto não é um panfleto comunista enfeitado com um bonito panegírico à democracia da Coreia do Norte) e o esmagar de sonhos do quotidiano é um tema predominante em "The Promised Land", por exemplo, mas sempre de uma forma estóica e nunca depressiva.

I've done my best to live the right way 
I get up every morning and go to work each day
But your eyes go blind and your blood runs cold
Sometimes I feel so weak I just want to explode
Explode and tear this town apart
Take a knife and cut this pain from my heart

Gonna be a twister to blow everything down
That ain't got the faith to stand its ground
Blow away the dreams that tear you apart
Blow away the dreams that break your heart
Blow away the lies that leave you nothing but lost and brokenhearted

Esta insignificância fez-me sempre associar as letras de Springsteen às letras de Steinbeck que também dão um destaque superlativo à luta diária do homem comum. Essa enorme capacidade de percepção das questões sociais e a acutilância com que as abordam, desprezando igualmente ocas revoluções e alienações colectivas, sempre me pareceram aproximar imenso o músico e o cantor. Assim, foi com alguma naturalidade que descobri o álbum "The Ghost of Tom Joad", levemente baseado na personagem principal de "As Vinhas da Ira". É um álbum acústico, coisa que à partida me afasta porque acho que é preciso um talento muito raro para cativar apenas com voz e guitarra (o mesmo se aplica no fado), mas músicas como "Youngstown" ou "Straight Time" deitam abaixo qualquer cepticismo.

No entanto, é a música que dá nome ao álbum que mais se destaca em particular por transpôr de uma forma tão nítida aquilo que imaginei ao ler o livro de Steinbeck. Uma letra rica em imagens quase cinematográficas e uma apologia do activismo social no melhor sentido da expressão.

Men walking 'long the railroad tracks
Going someplace, there's no going back
Shelter line stretching 'round the corner
Welcome to the new world order
Families sleeping in the cars in the southwest
No home, no job, no peace, no rest

Now Tom said, "Mom, wherever there's a cop beating a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight against the blood and hatred in the air
Look for me, Mom, I'll be there
Wherever somebody's fighting for a place to stand
Or a decent job or a helping hand
Wherever somebody's struggling to be free
Look in their eyes, Ma, and you'll see me"

Acerca da infalibilidade dos clássicos

por Tiago, em 04.06.16

Depois de "Orgulho e Preconceito" e "Jane Eyre" que me encheram as medidas de maneiras diferentes, decidi continuar na onda dos clássicos e estrear-me a ler um livro de Joseph Conrad.

À partida, o livro que eu queria ler era o "Coração das Trevas": primeiro porque tenho o livro em formato digital algures perdido no computador; segundo porque fiquei fascinado com o conceito de um coração de África, uma floresta impenetrável que constitui uma barreira física, mental e cultural dificilmente ultrapassável; terceiro, e último, porque me despertou muita curiosidade a descrição de Michael Palin sobre esta zona do rio Congo e do contraste com a região do Transvaal no norte da África do Sul.

Como em muitas coisas, o Fado interveio na pessoa colectiva da CP-Comboios de Portugal e da sua forma arcaica de compra de títulos de transporte para comboios regionais que me fez passar um bonito par de horas na Estação do Oriente a um sábado de manhã. Lá fui espreitar a Feira do Livro, que lá está de forma mais ou menos consecutiva (e ainda bem), e trouxe dois ou três livros, no meio dos quais vinha "O Agente Secreto".

A história passa-se na Londres do final do século XIX e a personagem principal é o indolente Verloc, um agente secreto ao serviço de uma potência estrangeira e parte integrante de um grupo meio anarquista, meio revolucionário. No meio da preparação e execução de um atentado está a vida quotidiana do senhor Verloc, a sua mulher, o seu cunhado e a sua loja de artigos, vá, alternativos.

Além das personagens incaracterísticas, aborrecidas e genericamente indefinidas, a história é pouco convincente, há muito fumo de salões e pouco de explosões. A escrita em si também não me agradou particularmente, achei-a bastante soporífera e confusa. Decerto existirão méritos numa obra que se tornou um clássico e é uma referência do romance policial mas a verdade é que em nenhum momento lhe achei alguma piada e a muito custo a terminei.

Enfim, o pior é que agora fiquei com vontade nula de ler o "Coração das Trevas". Daqui a uns anos, talvez, quando me esquecer deste completo fiasco. Fica apenas uma encantadora descrição da sogra do senhor Verloc, com a qual todos podemos aprender.

Mas não permitiu que as suas apreensões interiores a privassem da vantagem de uma placidez venerável.

Acerca de bonitos bocados de alcatrão

por Tiago, em 14.05.16

Há algum tempo falei aqui da estrada Nacional 202 que é bem bonita sim senhor. No entanto, há espaço no meu coração para mais alcatrão. Neste caso em particular, alcatrão que é minhoto como o da já aqui homenageada Nacional 202. Se calhar devia fazer um blog só sobre rede viária, imagino o furor nas redes sociais!

Durante uma eternidade, na era pré-auto-estrada (coisas com dois hífens caraças!) a N13 entre Porto e Valença foi a principal ligação entre o Norte do país e a Galiza. Isto significa que se trata de uma estrada com muito trânsito provando que não só as estradas perdidas no meio dos montes podem deixar belas recordações na memória de viajantes.

Começar no Porto aqui não interessa para nada, o interesse disto é mesmo de Viana do Castelo para cima: passar o rio Lima pela Ponte Eiffel com a Santa lá no topo do Monte de Santa Luzia é logo um abre olhos para quem vem distraído e entediado com a viagem.

 A Ponte Eiffel, a Santa Luzia, Viana do Castelo e a Foz do Lima.

 

Dali para a frente, saindo de Viana até ao fim de Portugal, seguir sempre pela beira mar é uma experiência estranhamente calma, especialmente no trânsito tumultuoso de Agosto. Será o efeito calmante da Senhora da Agonia ou simplesmente o facto de estar de férias? É capaz de ser a última hipótese embora lhe falte a veia poética que me caracteriza.

Ultrapassada a pitoresca estância veraneante de Âncora, o fim de Portugal anuncia-se com o primeiro vislumbre do Monte de Santa Tecla e do Forte da Ínsua ali na Foz do Minho. Para pessoal com muita, muita vontade, podeis fazer-vos ao mar ali por Moledo. É provável que saíam de lá roxos e com os ossos a ranger, mas enfim, são opções. Eu por mim preferia fazer um piquenique ali pelo Pinhal do Camarido e deixar o banho para um local com esquentador.

De banho tomado ou de barriga cheia chegamos a Caminha e o Oceano Atlântico é substituído do lado esquerdo pelo rio Minho. Cuidado não se distraíam, a estrada é mesmo em cima do rio ao ponto de não ser difícil ir lá parar. Da Foz do Minho passamos pela Foz do Coura e seguimos até Vila Nova de Cerveira, provavelmente uma das vilas mais encantadoras de Portugal. Os mais românticos podem ir visitar a Ilha dos Amores; eu prefiro vê-la do cima do monte. Suponho que seja apenas uma questão de perspectiva.

O rio Minho, a Foz do Coura, Caminha e a marginal N13.

 

Chegamos por fim a Valença. Valença do Minho parece-me algo redundante visto que estamos no Minho e estamos em Valença; aposto que foi algum gajo de Lisboa da Estremadura a pôr este nome à terra. Uma vila fortificada, com canhões a apontar para Espanha: o sonho de qualquer nacionalista encartado que ainda sonhe com a anexação de Olivença. 

Pessoalmente é o posto fronteiriço que maior impressão me causa. Nascido na União Europeia, parece-me um conceito um bocado marado pôr polícias numa ponte que une pessoas que são basicamente iguais. É que não há mesmo diferenças entre Portugal e a Galiza.

Eram bem divertidas as burocracias de outros tempos.

 Vista da Fortaleza de Valença para o Posto Fronteiriço, a Ponte Internacional e Tui.

Acerca da Trágica e Gloriosa História de Gimme Shelter

por Tiago, em 07.05.16

Um aspecto que pesa cada vez na minha apreciação dos filmes que vejo é a banda sonora. É um vício do qual me apercebi à medida que me embrenhei na obra de Quentin Tarantino e imergi naquele emaranhado de músicas série D, há muito esquecidas mas com um papel memorável em algumas cenas. Como esquecer "Down In Mexico" em Death Race ou "Don't Let Me Be Misunderstood" no Kill Bill?

Uma música à qual associo cinema é sem dúvida "Gimme Shelter" dos Rolling Stones, em especial os filmes de polícias e bandidos de Martin Scorcese: CasinoGodfellas e o meu favorito The Departed. Apesar de ser uma das minhas músicas preferidas, apenas descobri recentemente a trágica histórica da sua gravação. 

Reza a história que os Stones estavam por Los Angeles em 1969, uma época particularmente violenta e rica em tumultos sociais, e precisavam de uma voz feminina para gravar o refrão de Gimme Shelter: Rape, murder/It’s just a shot away!

There are some guys in town from England. And they need someone to come and sing a duet with them, but I can’t get anybody to do it. Could you come?

Apesar da hora tardia e do estado avançado de gravidez, Merry Clayton lá foi até ao estúdio e gravou uma impressionante performance vocal que fica para a história.

Despite giving what would become the most famous performance of her career, it turned out to be a tragic night for Clayton. Shortly after leaving the studio, she lost her baby in a miscarriage. It has generally been assumed that the stress from the emotional intensity of her performance and the lateness of the hour caused the miscarriage.

A história completa pode ler lida aqui.

 

Acerca de Suaves Músicas e Violência Brutal

por Tiago, em 26.04.16

Um dos filmes mais interessantes que vi nos últimos tempos foi "A Most Violent Year" sobre a onda de criminalidade que varreu a cidade de New York nos anos 80. O filme não é brilhante e vale sobretudo pelos papéis desempenhados por Oscar Isaac e Jessica Chastain. A sequência de abertura mostra o protagonista, um empresário ambicioso interpretado por Isaac, a correr pelos perigosos subúrbios sobre um pano de fundo musical que desconhecia, "Inner City Blues" uma canção de 1971, interpretada por Marvin Gaye. Chamou-me a atenção a música e, mais tarde, tomei alguma atenção à letra:

Crime is increasing
Trigger happy policing
Panic is spreading
God know where we're heading

Talvez em Portugal não se tenha chegado a este nível mas fez-me pensar um pouco no papel da polícia na sociedade e em confrontos como os que ocorreram em Jacksonville, por causa de tensões raciais, ou no Brasil, em resposta à crise política desencadeada pela operação Lavajato. 

Acerca de promessas falhadas

por Tiago, em 19.04.16

Ninguém gosta de histórias perfeitas.

Comecei a seguir o ciclismo de estrada mais a sério em 2009, num Verão em que o tédio era palavra de ordem e não tinha mesmo nada para fazer. Para os verdadeiros conhecedores, a grande história era o regresso de Lance Armstrong e a rivalidade com o melhor ciclista do momento e companheiro de equipa, o espanhol Alberto Contador. Para mim o momento inesquecível é o segundo final em montanha da corrida, onde apenas um jovem luxemburguês chamado Andy Schleck tem a ousadia de perseguir Contador quando este ataca de forma avassaladora.

Ao longo dos anos, a minha preferência foi sempre para Contador pela sua atitude de matar ou morrer que leva sempre para as corridas, sempre ao ataque, sempre em busca de mais vitórias, sem desistir e a tentar deixar recordações vívidas na memória dos fãs. Mas isso era assunto para um outro post. Neste queria mesmo tentar explicar o porquê de trazer aqui o mais novo dos irmãos Schleck. É quase comum a história de um super talento que por uma razão ou outra se perde e não concretiza todo o seu potencial: acontece com actores, músicos, futebolistas, etc.

Tornou-se profissional em 2005 e participou pela primeira vez numa corrida de três semanas em 2007, com um brilhante 2º lugar na Volta a Itália. Não há nada de comum num miúdo de 22 anos obter um lugar destes na mais dura corrida do mundo, até porque as provas de três semanas são bastantes mais adequadas a corredores experientes e batidos. Mas Andy Schleck não foi um ciclista comum: a sua primeira vitória profissional só chegaria em 2009 num dos monumentos do ciclismo, uma das cinco corridas de um dia mais importantes do ano, a Doyenne Liége-Bastogne-Liége, 260km pelas colinas das Ardenas, conquistada com um brilhante ataque a 20km da meta. Ainda neste ano chega pela primeira vez ao pódio no Tour com um segundo lugar atrás do mais brilhante Contador de sempre. Por diferentes razões, Schleck volta a ficar em segundo na Volta a França de 2010 e 2011.

Apesar do talento óbvio e dos resultados obtidos nestes três anos, ficou sempre a ideia de que Andy Schleck não estava a cumprir o seu potencial: sucessivos erros tácticos, faltas de profissionalismo em grandes corridas (expulso da Volta a Espanha de 2010 por estar a beber num bar antes de uma etapa importante) e uma obsessão pelo Tour que o impediram de conquistar outras corridas prestigiadas, sempre colocaram Andy Schleck num lugar estranho para os fãs de ciclismo.

2012 marca o início do fim da carreira com quedas sucessivas que o atiram para fora da sua Volta a França. Em 2013 ainda alcança um honroso 20º lugar no Tour mas a cabeça de Andy está claramente noutro sítio e já não se vê a motivação e alegria no pedalar de outros anos; talvez seja este o resultado que atesta melhor o brutal talento de um ciclista que no meio de todos os problemas chega a um lugar destes numa das mais duras provas do calendário. O fim chega no Tour de 2014 onde uma queda à 3ª etapa lhe destrói o joelho e termina de vez com todas as esperanças de o voltar a ver ao melhor nível.

Para mim como fã ficam as memórias de um trepador puro como nenhum outro, com um equilíbrio perfeito entre potência e cadência na pedalada; os franceses têm a melhor palavra de sempre para definir a facilidade aparente de um ciclista em vencer obstáculos na alta montanha: souplesse.

 Andy Schleck ao ataque nos Alpes, a caminho da sua mais brilhante vitória de sempre no Tour em 2011.

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